Mahdi Fleifel, com seu “To a Land Unknown”, entrega um murro no estômago disfarçado de cinema. A trama segue Chatila (Mahmoud Bakri) e Reda (Aram Sabbagh), primos palestinos largados em Atenas como restos de um mundo que não os quer, lutando pra comprar passaportes falsos e alcançar a Alemanha. O que poderia ser só mais um drama de refugiados vira um estudo brutal de desespero, com uma câmera que não pisca diante da miséria. Fleifel, vindo do documentário, injeta uma autenticidade que faz você sentir o cheiro de suor e podridão nas ruas gregas. É um filme que não te deixa confortável — nem quer. E é nesse desconforto que começam a brotar os pontos queer, sutis como rachaduras numa parede prestes a ruir.
A relação entre Chatila e Reda é o fio condutor, e ela carrega uma eletricidade que não se explica só por laços de sangue. São dois homens presos num limbo, dependentes um do outro de um jeito que transcende a camaradagem hétero padrão. Chatila, com sua determinação quase maníaca, e Reda, afundado no vício e na fragilidade, formam um par que desafia as caixinhas da masculinidade tradicional. Não é amor romântico escancarado — Fleifel não é tão óbvio —, mas há uma intimidade crua, forjada na necessidade e na traição, que borra as linhas do que se espera de "primos" ou "irmãos de luta". É queer no sentido de ser fora da norma, um vínculo que não cabe em moldes prontos.
E tem mais: o próprio estado de exílio já é uma condição queer. Viver sem nação, sem raízes, é existir num espaço que a sociedade rejeita, um não-lugar onde as regras do "normal" se dissolvem. Chatila e Reda, como tantos outros na margem, criam seus próprios códigos de sobrevivência. O filme não romantiza isso — a vida deles é um inferno —, mas expõe como essa marginalidade força afetos e escolhas que desafiam o script hétero-patriarcal. Quando Reda se prostitui num parque pra juntar grana, não é só um ato de desespero; é um eco de práticas queer históricas, onde o corpo vira resistência e moeda num sistema que te cospe.
A estética de Fleifel reforça essa leitura. A câmera, quase voyeurística, captura os corpos de Chatila e Reda em closes que são ao mesmo tempo invasivos e ternos. Há uma fisicalidade na maneira como eles se movem juntos — um toque no ombro, um olhar que pesa — que sugere mais do que diz, carregando uma tensão sexual sutil, um homoerotismo que não precisa de palavras. Não é um filme que grita "representação LGBTQ+", mas também não precisa. O queer aqui está nas entrelinhas, na tensão não resolvida, na forma como a vulnerabilidade masculina é exposta sem filtro. É sutil, mas cortante como uma navalha.
“To a Land Unknown” não é perfeito. A narrativa às vezes se perde no próprio peso, e o ritmo pode parecer um soco atrás do outro sem pausa pra respirar. Mas é exatamente essa asfixia que dá força ao filme — e que abre espaço pra essas leituras queer. Não é sobre bandeiras arco-íris; é sobre o que acontece quando o mundo te arranca tudo e você só tem o outro pra segurar. Chatila e Reda não são heróis, nem mártires; são sobreviventes num jogo que já perdeu a graça. E nisso, Fleifel acha beleza, mesmo que torta.
O filme é um tapa na cara de quem espera redenção fácil. Não tem final feliz, só a promessa de um "talvez" que nunca chega. Mas entre os escombros dessa jornada, os pontos queer brilham como fagulhas: na relação ambígua dos primos, na marginalidade que os une, nos corpos que negociam sobrevivência. Fleifel não te dá respostas, mas te força a olhar pras perguntas. E, puta merda, como isso fica na cabeça.