sexta-feira, 4 de abril de 2025

Rumo a Uma Terra Desconhecida (To a Land Unknow, Reino Unido/Grécia/Países Baixos/Arábia Saudita/Dinamarca/Alemanha/Catar, 2024)


 Mahdi Fleifel, com seu “To a Land Unknown”, entrega um murro no estômago disfarçado de cinema. A trama segue Chatila (Mahmoud Bakri) e Reda (Aram Sabbagh), primos palestinos largados em Atenas como restos de um mundo que não os quer, lutando pra comprar passaportes falsos e alcançar a Alemanha. O que poderia ser só mais um drama de refugiados vira um estudo brutal de desespero, com uma câmera que não pisca diante da miséria. Fleifel, vindo do documentário, injeta uma autenticidade que faz você sentir o cheiro de suor e podridão nas ruas gregas. É um filme que não te deixa confortável — nem quer. E é nesse desconforto que começam a brotar os pontos queer, sutis como rachaduras numa parede prestes a ruir.

A relação entre Chatila e Reda é o fio condutor, e ela carrega uma eletricidade que não se explica só por laços de sangue. São dois homens presos num limbo, dependentes um do outro de um jeito que transcende a camaradagem hétero padrão. Chatila, com sua determinação quase maníaca, e Reda, afundado no vício e na fragilidade, formam um par que desafia as caixinhas da masculinidade tradicional. Não é amor romântico escancarado — Fleifel não é tão óbvio —, mas há uma intimidade crua, forjada na necessidade e na traição, que borra as linhas do que se espera de "primos" ou "irmãos de luta". É queer no sentido de ser fora da norma, um vínculo que não cabe em moldes prontos.

E tem mais: o próprio estado de exílio já é uma condição queer. Viver sem nação, sem raízes, é existir num espaço que a sociedade rejeita, um não-lugar onde as regras do "normal" se dissolvem. Chatila e Reda, como tantos outros na margem, criam seus próprios códigos de sobrevivência. O filme não romantiza isso — a vida deles é um inferno —, mas expõe como essa marginalidade força afetos e escolhas que desafiam o script hétero-patriarcal. Quando Reda se prostitui num parque pra juntar grana, não é só um ato de desespero; é um eco de práticas queer históricas, onde o corpo vira resistência e moeda num sistema que te cospe.

A estética de Fleifel reforça essa leitura. A câmera, quase voyeurística, captura os corpos de Chatila e Reda em closes que são ao mesmo tempo invasivos e ternos. Há uma fisicalidade na maneira como eles se movem juntos — um toque no ombro, um olhar que pesa — que sugere mais do que diz, carregando uma tensão sexual sutil, um homoerotismo que não precisa de palavras. Não é um filme que grita "representação LGBTQ+", mas também não precisa. O queer aqui está nas entrelinhas, na tensão não resolvida, na forma como a vulnerabilidade masculina é exposta sem filtro. É sutil, mas cortante como uma navalha.

“To a Land Unknown” não é perfeito. A narrativa às vezes se perde no próprio peso, e o ritmo pode parecer um soco atrás do outro sem pausa pra respirar. Mas é exatamente essa asfixia que dá força ao filme — e que abre espaço pra essas leituras queer. Não é sobre bandeiras arco-íris; é sobre o que acontece quando o mundo te arranca tudo e você só tem o outro pra segurar. Chatila e Reda não são heróis, nem mártires; são sobreviventes num jogo que já perdeu a graça. E nisso, Fleifel acha beleza, mesmo que torta.

O filme é um tapa na cara de quem espera redenção fácil. Não tem final feliz, só a promessa de um "talvez" que nunca chega. Mas entre os escombros dessa jornada, os pontos queer brilham como fagulhas: na relação ambígua dos primos, na marginalidade que os une, nos corpos que negociam sobrevivência. Fleifel não te dá respostas, mas te força a olhar pras perguntas. E, puta merda, como isso fica na cabeça.



quinta-feira, 3 de abril de 2025

Oscar Wilde About America (EUA, 2025)

Imagine Oscar Wilde, o rei do sarcasmo vitoriano, largando os leques e as xícaras de chá pra pilotar um conversível coberto de poeira, cortando os EUA da atualidade, como um profeta queer que trocou os salões por selfies e Wi-Fi de posto de gasolina. "Oscar Wilde About America", sob o comando de James Andrew Walsh, pega a turnê histórica de Wilde em 1882 — quando ele desembarcou na América pra dar palestras e ensinar os yankees a segurar um garfo com estilo — e a transforma numa road trip alucinada de Nova York a Hollywood. O que sai disso é uma comédia biográfica que joga purpurina na cara dos EUA, entre um tapa satírico e um brinde à liberdade de ser quem você bem entender.

Oscar Conlon-Morrey, saído direto do West End, veste Wilde com um misto de pose teatral e veneno contemporâneo — dá pra senti-lo soltando pérolas como “muitos carecem da originalidade de carecer de originalidade” enquanto faz pose pra um TikTok no Grand Canyon ou morde um cachorro quente na Times Square.

O elenco de apoio é um banquete de divas que não brincam em serviço: Rosemary Harris como Lady Bracknell, destilando sarcasmo como se fosse o GPS mandão da viagem, e Kate Burton como Sara Bernhardt, serve conselhos enquanto Wilde tenta entender o que é um podcast. A trama joga Wilde num 2025, cheio de glitter e caos, onde os grilhões de 1882 viraram correntes invisíveis de likes e cancelamentos — e o trânsito da I-95 é o verdadeiro teste de santidade.


"Oscar Wilde About America" dança na linha tênue entre o deboche e uma alma vibrante. E se o lendário autor estivesse em Pool Parties e Paradas LGBTQIA+? É uma festa de inclusão, com a canção “Be Yourself, Everyone Else Is Taken” (inspirada numa famosa citação de Wilde) ecoando como um grito de guerra pra quem já mandou as convenções para longe. Mas não se engane: o filme também crava os dentes na América que Wilde chamou de “barbarismo direto pra decadência, sem escala na civilização”. 


Não espere a gravitas de "Wilde", com Stephen Fry eternizando o gênio, em 1997. "Oscar Wilde About America" é outra coisa: é o dândi com bronzeado, mapa amassado e uma playlist que vai de Chopin a Chappell Roan, rindo da América enquanto descobre que ela, no fundo, é um circo que ele adoraria comandar. É provocação com alma, um lembrete de que ser autêntico é o maior dedo do meio que você pode mostrar pro mundo. Walsh entrega uma sátira  que não só sobrevive à road trip, mas a transforma num manifesto  e, se o filme tropeçar, pelo menos vai ser com estilo, e um elegante sotaque britânico.



quarta-feira, 2 de abril de 2025

Glitter & Doom (EUA/México, 2023)

 

"Glitter & Doom", dirigido por Tom Gustafson, é uma celebração vibrante da identidade queer que se destaca no cenário muitas vezes homogêneo dos musicais cinematográficos. Longe de ser uma obra-prima técnica, o filme conquista pela autenticidade e pela ousadia de colocar um romance gay no centro de um jukebox musical. A premissa simples – dois jovens sonhadores, Glitter (Alex Diaz) e Doom (Alan Mandujano), se apaixonam enquanto buscam seus caminhos – é elevada por uma energia despretensiosa que transborda sinceridade.

A grande força de "Glitter & Doom" está em sua trilha sonora, composta por 25 releituras de canções das Indigo Girls, como "Closer to Fine" e "Galileo", rearranjadas com maestria por Michelle Chamuel. Essas faixas, originalmente folk e introspectivas, ganham nova vida com arranjos pop vibrantes e coreografias coloridas que injetam vitalidade em cada cena musical. A escolha das Indigo Girls, ícones da música queer, reforça a conexão emocional com o público e dá ao filme uma camada de autenticidade cultural que ressoa profundamente.

Visualmente, o filme é um deleite. Gustafson aposta em uma estética saturada de cores, com figurinos extravagantes e cenários que evocam um sonho pop-art. Essa direção artística não só reflete a personalidade excêntrica de Glitter, um aspirante a performer de circo, como também cria um contraste interessante com a melancolia introspectiva de Doom, um compositor em crise. A participação de Peppermint, conhecida por "RuPaul’s Drag Race", como a mãe de Glitter, adiciona um brilho extra. É um mundo que parece feito para abrigar esses outsiders, e a câmera os abraça com carinho.

A narrativa de "Glitter & Doom" é outro ponto alto, especialmente por evitar os desfechos trágicos tão comuns em histórias LGBTQIA+ no cinema. Aqui, o amor entre Glitter e Doom não é definido por sofrimento ou rejeição, mas por uma busca mútua por aceitação e felicidade. O filme celebra a possibilidade de finais felizes sem forçar melodramas desnecessários.

Os números musicais são a alma vibrante do filme, e alguns deles, como os duetos entre os protagonistas, são genuinamente emocionantes. A química entre Alex Diaz e Alan Mandujano é palpável, trazendo uma ternura que compensa qualquer falta de polimento na atuação ou no roteiro. Há momentos em que o filme parece mais um videoclipe estendido do que uma narrativa coesa, mas isso não chega a ser um defeito – é parte do seu charme descontraído. A direção de Gustafson sabe quando deixar a música falar mais alto, e isso funciona a favor da experiência.

"Glitter & Doom" merece aplausos por sua ambição de ser abertamente queer num formato acessível e divertido. Não é um filme perfeito – o ritmo vacila, e a profundidade dos personagens secundários deixa a desejar –, mas sua essência é encantadora. Ele prova que narrativas queer podem brilhar em musicais sem precisar de justificativas ou tragédias, e a presença das Indigo Girls na trilha sonora, e também num cameo, só amplifica essa conquista. 



terça-feira, 1 de abril de 2025

Love (Kjærlighet, Noruega, 2024)

"Love", segundo capítulo da trilogia "Sex, Love, Dreams "de Dag Johan Haugerud, é uma obra que se debruça sobre as complexidades da intimidade e do desejo em um mundo contemporâneo saturado por convenções e novas possibilidades. Ambientado em Oslo, o filme acompanha Marianne (Andrea Bræin Hovig), uma médica urologista na casa dos 40 anos, e Tor (Tayo Cittadella Jacobsen), um enfermeiro gay, ambos colegas de hospital que navegam suas próprias buscas por conexão sexual e emocional.

Haugerud, conhecido por sua abordagem discursiva e sensível, constrói um drama que é leve e profundamente introspectivo, utilizando longas conversas para desvelar as tensões internas de seus personagens. A direção de fotografia de Cecilie Semec, com sua luz suave e tons quentes, confere ao filme uma aura acolhedora que contrasta com a inquietação emocional de seus protagonistas.


A perspectiva queer é central em "Love", especialmente na jornada de Tor, que encarna uma visão de sexualidade fluida e descomplicada. Ele frequenta o píer de Oslo em busca de encontros casuais com homens, uma prática que descreve com franqueza e sem culpa, desafiando as expectativas de monogamia e romantismo. Haugerud, que já declarou que todos os seus trabalhos partem de uma lente queer, utiliza Tor para explorar uma forma de intimidade que não depende de laços emocionais profundos, mas que ainda assim é válida e gratificante. 


Além da ótica queer, Love também se aprofunda nas contradições humanas, especialmente através de Marianne. Como urologista, ela lida com a biologia masculina de forma clínica, mas demonstra uma desconexão emocional em suas interações pessoais, algo que Tor a fará repensar.


A cidade de Oslo desempenha um papel quase como personagem em Love, refletindo a dualidade entre tradição e modernidade que permeia a narrativa. Haugerud, que não é nativo da capital norueguesa, traz um olhar nostálgico para locais como a prefeitura de Oslo, que ele associa à sua infância, mas também captura a efervescência de uma cidade que se transformou em um centro cosmopolita. 


No fim, Love é uma obra que celebra a complexidade do desejo humano, mas também reconhece suas contradições e limitações. Haugerud entrega um filme que é, acima de tudo, um convite ao diálogo — não apenas entre os personagens, mas também com o público. Como parte de uma trilogia que explora sexualidade, intimidade e identidade, o filme se destaca por sua abordagem empática e não julgadora, mas deixa uma sensação de que poderia ter ido ainda mais fundo nas emoções de seus personagens.